sexta-feira, 11 de agosto de 2017

INFÂNCIA COM INÍCIO, MEIO E FIM


Fui vários meninos.

Sou adulto porque brinquei tudo o que podia na infância.

Gastei a infância.

Usei a infância.

Encardi a infância.

Envelheci a infância.

Fui o menino das bolinhas de gude.

Meu dedão é um gatilho de bolitas.

Fui o menino do futebol de botão.

Chamava o meu time de Resto do Mundo e sempre acabava como o vice-campeão do bairro - jamais ganhei do Rodrigo, meu irmão mais velho.

Fui o menino do Banco Imobiliário, Detetive, War, Pula-Pirata, Playmobil, Pinogol, Aquaplay e Atari.

Fui o menino do Forte Apache, com índios montando ataque à cavalaria, escondidos nas samambaias da varanda.

Fui o menino que não comprava cachorro, adotava vira-lata manco e perdido nas redondezas (antes da carrocinha achá-los).

Fui o menino do carrinho de rolimã.

Ia para escola seguindo o rastro das rodas nas lajes.

Fui o menino que tirava a fofolete da caixinha de fósforo das colegas para colocar uma barata no lugar.

Fui o menino do ioiô, havia campeonato na escola para demonstrar manobras como estrela, pêndulo de relógio e cachorro passeando.

Fui o menino das pipas.

Os fios elétricos colecionavam as minhas invenções coloridas.

Fui o menino de jogar pedras no rio.

Criava círculos perfeitos em lançamentos rasantes.

O rio nunca afundou em meus olhos.

Fui o menino de jogar bola de garagem a garagem.

A turma parava a partida quando passava um carro.

Fui o menino do pião, minha bailarina, meu ciclone de estimação, rezando por mais uma pirueta, e que um novo giro levasse as tristezas embora.

Fui o menino do caçador, do esconde-esconde, do polícia-ladrão, de encontrar vãos e subir nos telhados.

Fui o menino de roubar frutas da casa dos outros.

Um dia devolvo.

Fui o menino de jogar bexiguinha do alto dos prédios nas pessoas.

Fazia o cálculo mental, atirava sem olhar, me escondia e esperava o grito de quem passava pela minha rua.

Fui o menino de só voltar para a residência quando já era noite, quando o sol também cansava, quando a lua não tinha mais força para disputar corrida, quando o jantar estava na mesa e eu ainda precisava tomar banho.

Hoje crianças já são adolescentes ao nascer e crescem sem ter infância.

FABRÍCIO CARPINEJAR

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